Do Parque ao Village - texto de Almir Ribeiro

Do Parque ao Village Ao grande jazzista Alexandre Silvério Um dia subestimei o poder de uma maçã. Sempre a tive como uma uva no meu minúsculo mundo de pequena raposa. No dia em que ela caiu aos meus pés decidi aproveitar o máximo que pude apesar de ter pouco tempo para isto. Foi em uma turnê em 2002 pelos Estados Unidos. Saí do hotel que ficava em frente ao Central Park e comecei a contagem regressiva de ruas até Greenwich Village para ouvir um bom jazz e fazer o caminho contrário de um filme que assisti há muitos anos em que o protagonista não conseguia chegar em casa após uma noite de vários atropelos. Foram algumas horas de caminhada observando cada esquina e cada personagem daqueles 24 quadros por segundo. Ver que aquelas casas que tem a entrada num semisubsolo realmente existem já valiam o passeio. Aqueles poucos degraus que já foram palco de beijos inesquecíveis no cinema e ao mesmo tempo separavam a rua da sala de estar me pareciam como sair das montanhas e ver o litoral. Só o montanhês sabe qual é a sensação te ver aquele mundo de água azul depois de percorrer tantos quilômetros. Aquela visão tem cheiro salgado, tem som de vento, tem vista pro mar. Dá pena ver a espuma das ondas se desfazer em tão pouco tempo nas mãos enquanto ainda pode-se agarrá-la. Assim me senti naquela cidade grande e pequena ao mesmo tempo. Desfruta-se de todos os recursos das grandes metrópoles, mas ao mesmo tempo tem aquele toque interiorano brasileiro de que se você quer ouvir um bom dia ou um muito obrigado, basta olhar para um estranho nos olhos ao atravessar uma rua ou segurar a porta para que o outro passe. O tempo passa muito rápido quando se tem o que observar e naquela cidade o que falta é tempo para aproveitá-la com os olhares que ela merece. Foi uma pena ter apenas um dia e meio de folga no trabalho. Era uma segunda-feira e este é o pior dia para se ouvir um bom jazz em Nova Iorque. Parece-me que existe um Shabat Shalom dos jazzistas, mas fui até meu destino mesmo que não houvesse trilha sonora. Como nos filmes, via vapor subindo pelas tubulações do metrô e gente de casacos pesados flutuando nas calçadas em todos sentidos. Observando cada folha caída de cada árvore observada por cada pessoa que andava por ali, tudo parecia perfeito num mundo de milhares de imagens sem som. Claro que em plena segunda-feira não conseguiria mais que uma boa cerveja para não maular no caminho de volta. Subi frustrado pela Broadway e quando me desviei pensando em passar para dar uma olhada na fachada do Carnegie Hall, ouvi um som de saxofone. À medida que me distanciava do teatro, o som ia ficando cada vez mais forte. Quando o som parecia estar ao meu lado, percebi que estava mesmo. Um sujeito tocava Round Midnight. Do seu lado esquerdo havia uma caixa com várias moedas e vários George Washingtons surrados e amarrotados. Hipnotizado pelas circunstancias, fiquei ali ouvindo até o final. Como se eu fosse um caça-talentos, ele para me impressionar, na última nota que soprou, cantou a nota do baixo formando um acorde. Enquanto eu o aplaudia entusiasmado, ouvi seu relógio tocar o alarme que anunciava a chegada do dia seguinte. Riu após minha reação de admiração e disse “Gracias, señor”. Se ele fazia aquela mágica todos os dias para ter uma contribuição tão graúda quanto a minha naquele final de noite, nunca saberemos, pois nas outras vezes que estive naquela cidade, evitei horário e aquela esquina de ruas com avenidas para não perder o encanto. O que sei mesmo é ele conseguiu sonorizar meu filme de 24 quadros por segundo maquele fim de noite. Colocou o sax na caixa, agradeceu, colocou seu chapéu e se perdeu na neblina urbana de um outono frio em Nova Iorque para sempre.

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